A bolha do crack

Publicado em jun 25, 2014

A bolha do crack

Hoje, ninguém quer ficar de fora da discussão sobre o crack. Vereadores, deputados estaduais e federais, párocos e síndicos, médicos e jornalistas, quem não estiver inserido no tema sente que está perdendo o bonde da história, deixando de se capitalizar com o que está na moda, e corre para entrar de alguma forma no debate. É evidente que se trata de um tema da maior seriedade e importância, e que políticas públicas têm de ser elaboradas, mas a corrida ao ouro que essa dinâmica de bolha estimula pode levar a propostas atabalhoadas, inócuas ou até mesmo prejudiciais.

Vejamos o caso da proposta de reservar cotas de emprego para dependentes químicos em tratamento, aprovada pela Câmara dos deputados.

A justificativa é de que estar empregado diminui o risco de recaída. É verdade. Mas o desemprego aumenta também o risco de depressão, doença que por ser muito mais prevalente traz mais custos do que a dependência do crack. Por que então não fazer cotas para deprimidos em tratamento? Aproveitar o momento de pleno emprego do país e integrar as políticas de trabalho e saúde pode até ser uma boa ideia, mas só a força atrativa de uma bolha especulativa explica porque direcionar tais esforços exclusivamente para o crack.

Quem trata de dependência química sabe que recair é parte quase inevitável do processo. Isso é dito de saída para os pacientes, para que eles não desistam de tudo ao recaírem – tem que ficar claro que recair não significa que o tratamento deu errado, mas sim que deve ser mantido. Se os deputados quisessem ajudar os dependentes a se recuperar oferecendo-lhes empregos, a recaída deveria ser motivo para reforçar o vínculo trabalhista, não o contrário.

São leis assim que inflam o mercado de propostas para o crack.